quinta-feira, 21 de agosto de 2008

NEGÓCIO DA CHINA


Muito se fala no crescimento impressionante que a China vem vivendo. A maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, enxerga um mercado importante que contribuirá para alterar a posição do pêndulo da balança de exportação. Comitês governamentais visitam Pequim, empresários viajam para a China para identificar novas oportunidades e aprender da cultura daquele povo e assim adequar seus produtos. Tentam também identificar os fatores que proporcionam ao brasileiro comprar produtos mais baratos vindos de lá do que os fabricados aqui.

Enfim, o mercado chinês se transformou numa grande oportunidade de negócios para as empresas brasileras que pretendem e tem condições de exportar.

Melhor, a China sempre foi um bom mercado, desde o século XVI, quando os portugueses saiam em suas naus do porto de Lisboa com destino aquele país e voltavam um ano e meio depois, após sobreviver a todos os perigos que a viagem proporcionava. Se saíssem três caravelas e voltasse apenas uma, mesmo assim, obtinham lucro, daí a expressão: NEGÓCIO DA CHINA.

Para que se possa entender um pouco da evolução chinesa, abaixo está um artigo do jornalista Nelson Franco Jobim, publicado hoje, dia 21.08.2008, no portal Direto da Redação, com o título "Quem tem medo da China?":







"É inevitável que um país com a tradição milenar da China, a segunda civilização mais antiga da História, com 1,3 bilhão de habitantes, e taxas de crescimento sem precedentes de 10% ao ano nas últimas duas décadas se torne uma superpotência no mundo globalizado.

No final do século 15, quando começa a expansão colonial marítima européia, o imperador retirou a frota chinesa do Oceano Índico. A partir daí, o país se fechou. Mais uma vez, a China se autodestruiu em conflitos internos. É um país imenso, de 9,6 milhões de quilômetros quadrados (o Brasil tem 8,5 milhões de km2) sem fronteiras naturais.

Na Antigüidade, era o Império do Centro, o centro do universo conhecido na Ásia, o país dos poetas e dos filósofos, de pensadores como Confúcio e Lao-Tsé. Sua herança agora é resgatada para a construção do poder suave, ideológico, da nova superpotência.

Essa ordem sino-cêntrica só foi rompida pelas Guerras do Ópio (1839-42), quando os ingleses tomaram Hong Kong e impuseram o livre comércio para vender ópio e narcotizar o país. É o marco do avanço imperial europeu sobre a China. Depois, o Japão derrotaria a China na Guerra Sino-Japonesa (1894-95), transformando-se em potência regional.

Com a derrota para o Japão, a Dinastia Ching entrou na sua crise terminal. O Império caiu em 1911, e a China se tornou numa república. Durante décadas, consumiu-se numa guerra civil, primeiro entre senhores da guerra, depois entre comunistas e nacionalistas.

A revolução chinesa faz parte de um projeto de independência nacional. Em 1868, o Japão percebeu que precisava se ocidentalizar e se industrializar para não virar colônia do Ocidente. O caminho chinês foi mais longo e tortuoso.

A China era o país mais pobre do mundo, dilacerado por senhores da guerra. Os centros importantes, como Xangai, Nanquim e Beijim, estavam sob dominação colonial sem ser colônia explicitamente, como era o caso da Índia.

Houve uma longa guerra civil fratricida. O Partido Comunista da China foi massacrado por atender à orientação do ditador soviético Josef Stalin de formar uma frente popular com o partido nacionalista Kuomintang, de Chiang Kai-Shek.

O massacre dos comunistas levou à Grande Marcha, de cerca de 10 mil km, de 1934-36. Em 1937, o Japão, que tinha invadido a Mandchúria em 1931, invade o resto das cidades costeiras importantes da China e suas capitais.

Cerca de 200 mil pessoas foram mortas no Massacre de Nanquim, uma das tantas atrocidades cometidas pelo Exército Imperial do Japão e nunca ensinada nos livros de história japoneses.

O Japão nunca pediu perdão realmente por seus crimes de guerra, e isso complica as relações regionais japonesas. É aliado dos EUA, que em tese podem usar o Japão se algum dia for necessário "conter" a China.

Estes três países disputam a hegemonia na Ásia. Os EUA vão perdendo importância relativa na medida em que a ascensão da China e - quem sabe? - a emancipação do Japão (a mudança do art. 9 da Constituição do Japão, que o compromete com o pacifismo e limita a atuação das Forças de Defesa do Japão ao território e às águas territoriais do país, a não ser em missões internacionais de paz) deslocam o eixo do poder no mundo rumo à Ásia.

Depois da vitória da revolução, em 1º de outubro de 1949, a China passou por fortes turbulências e grandes fomes na campanha das Cem Flores, no Grande Salto para a Frente e, sobretudo, na Grande Revolução Cultural Proletária (1966-76). Milhões de chineses morreram sob o comunismo.

A China se radicalizou e rompeu com a URSS em 1964. Dois anos antes, o líder soviético Nikita Kruschev tinha adotado uma política de coexistência pacífica em bases permanentes com o Ocidente, depois da Crise dos Mísseis em Cuba (14-27 de outubro de 1962). Esteve à beira da guerra com a URSS numa série de incidentes de fronteira, em 1969.

O então assessor de Segurança Nacional dos EUA, Henry Kissinger, sentiu a oportunidade e foi em 1971 à China, isolada pela Revolução Cultural. No ano seguinte, o presidente americano Richard Nixon foi à China e selou uma aliança estratégia. Por sua inimizade com a URSS, Mao Tsé-tung optou pelos EUA.

Logo depois de ganhar uma guerra civil e fazer uma revolução para que a China nunca mais fosse humilhada pelas potências imperiais, Mao foi a Moscou no início de 1950 e levou um gelo de Stalin. O dirigente soviético levou 50 dias para recebê-lo, em pleno inverno russo.

Mao engoliu a ofensa e saiu com um Pacto de Amizade Sino-Soviético que mantinha a inferioridade da China nas relações internacionais. As relações entre os PCs das grandes potências comunistas eram difíceis desde que Stalin recomendou a desastrosa aliança com Chiang Kai-shek. Pioraram quando Kruschev denunciou os crimes do stalinismo, em 1956, e mais ainda depois da Crise dos Mísseis.

Na última fase da Guerra Fria, a China foi uma espécie de aliada não-membro da OTAN. Sob a proteção do sistema de segurança dominado pelos EUA no Leste da Ásia, a China, dirigida por Deng Xiaoping, inicia em 1978 seu programa de modernização que levou ao mais extraordinário crescimento da história humana.

Deng teria recomendado aos chineses que enriquecessem mas fossem discretos para outros países não se sentirem ameaçados pelo desenvolvimento da China.

Com a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijim, parece que a China não está mais preocupada em ser discreta. Quer mostrar sua força. Está fazendo a festa e ao que tudo indica será campeã olímpica."

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